11 - Cigarros... No Inferno

Um senhor, aparentemente da minha idade, surpreendeu-me perguntando se podia sentar-se ao meu lado no banco. Respondi sem, cerimônia, que este não me pertencia, e que não tinha o direito de proibir ninguém.
No fundo, apesar do nervosismo, estava feliz por haver encontrado companhia. Mesmo a mais inusitada, (apesar de espontânea), era bem-vinda.  Este senhor vestia-se como um mendigo de uma cidade bem fria, de roupas pesadas e surradas pelo tempo, e meias sortidas, assim como os calçados que usava (uma sandália no pé esquerdo e um sapato no pé direito), a barba grossa e poucos dentes, e sobre o ralo cabelo, grisalho, um boné surrado.
Pôs-me a questionar a mim mesmo, porque eu ainda trajava as roupas do hospital.
Miserável e andrajoso em aparência, porém, dotado de um conhecimento de historiador, e de um poeta, a eloquência. Envolveu-me até o cansaço em sua conversa agradável. Até conversar não fazer sentido a ninguém, então, assim como chegou, partiu.
Permaneci sentado um pouco mais. A crescente curiosidade por aquele lugar, no entanto, me inquietava, me incitava.
Ao longe, ouvia uma mulher praguejando.  Levantei e fui ao seu encontro. Seguindo as coordenadas do som de sua voz. Curioso como um gato. Até encontrar uma pequena casa de madeira, muito semelhante a do meu tempo, essa mulher, alma maniática por limpeza, ordenando, limpando a fundo e reorganizando, ininterruptamente as poucas coisas que tinha. Um vício contínuo, da primeira à última impressão. Tagarelava coisas para si mesma, mesquinharias, e nem o brilho impecável do chão encerado era capaz de lhe trazer alguma paz.
Caí no erro de elogiar-lhe a impecabilidade de sua morada. Tardei muito pouco em me arrepender por isso.
 - Ladrão! - ela gritava - Desgraçado maldito - insistia aos berros - Veio roubar minha casa! Ela é minha! Minha!
Ela berrava aos cinco horizontes, ao mesmo tempo que me atacava com a vassoura. E não se detinha, por mais que eu tentasse explicar o malentendido, insistia no ponto em que meu objetivo era prejudicá-la, roubando a única coisa que havia conquistado.
Pego de surpresa pela situação decidi bater em retirada.
E continuei encontrando pelo caminho toda a sorte de temperamentos em forma de gente - tanto que já quase me convencia de que aquele era, na verdade um gigantesco hospício.
A exemplo disso, em um momento investi certa energia observando o que parecia ser um jovem rapaz, seus 20, 22 anos, vestindo roupas dos anos 40, sentado no cordão da calçada, tinha em suas mãos uma especie de isqueiro. Aos seus pés, diversas carteiras de cigarro amassadas e ao seu lado uma quase na mesma situação. O bizarro da cena era que, ao invés dos cigarros própriamente ditos, havia no interior do pacote pequenos gravetos de galhos destas mesmas árvores secas que eu encontrara pelo caminho. E o prosseguimento deste show de bizarríce, foi ver que o rapaz não se detinha por ai, e de pouco em pouco colocava um graveto na boca, simulando, de fato o fumo. Acendia o graveto, e tragava a fumaça, ansiando qualquer espécie de prazer que isso lhe trouxesse.
Aquilo acionou uma agonia crescente e sem nome em meu peito, a roubar-me a paz sorrateiramente.
“Eu não me importo de não ir ao paraíso”, pensei comigo, “contanto que eles tenham cigarros... Contanto que eles tenham cigarros no inferno...”

E ao lembrar da letra dessa música, meu coração não ficou mais tranquilo, a agonia não me abandonou de forma alguma, assim que pus-me a fugir dali o mais rápido possível. E por “fugir” me refiro a ir embrenhando-me cada vez mais naquela cidade manicomial a ponto de me perder completa e desesperadoramente. 

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