10 - Cidade Fantasma
Assemelhava-se...
Não... Era uma cidade murada, parcamente iluminada por archotes em meio a nevoa
e bruma. Extremamente medieval em sua essência, mas não em sua totalidade.
A
estrutura toda tinha uma estética mista, englobando diversos estilos
arquitetônicos sem sobriedade nem organização, e muito menos estilo (partes de
uma palhoça japonesa, diretamente interligada com uma um pedaço de arranha-céu
novayorquino do seculo 21, de um lado, formando uma torre, um resto de amurada
espanhola, coberta de musgo, mais adiante, colada em uma camada excessiva de gelo polar, feitas de
partes de iglus que, por sua vez, era permeado de barro e areia, que pronto
reconheci como arquitetura árabe - isso fora os estilos que eu de sobremaneira
reconhecia). Assim, a muralha, propriamente dita, era uma colcha de retalhos, de
reformas sobre reformas, de séculos de quedas e reconstruções, despida de
qualquer beleza concebível: Um Frankenstein arquitetônico ao qual os anos
sequer haviam agraciado com sabedoria. Meu olhar atento e experiente percebia
infiltrações e rachaduras por toda extensão frontal da muralha, que falhava ai
em sua diretriz base que era proteger quem quer que fosse que vivesse dentro
daquele lugar.
Isso
sem contar também, a falta de vigilantes no portão de tijolos vermelhos da
revolução industrial(que mal se sustentava por si só), a controlar à entrada de
todo e qualquer errante que, como eu viera a aparecer por aquelas bandas.
No
entanto percebo que, em minha rabugice, ressurreto do choque de consciência a
que tinha sido exposto não muito tempo antes, estava, certamente, exagerando em
minhas críticas e, principalmente em minhas expectativas àquela antiga
construção, que certamente nada mais fazia do que guardar uma centenária cidade
fantasma perdida no mundo.
Apesar
disso, de todo o descaso e insegurança que aquele lugar me inspirava, resolvi
seguir portão adentro e tentar minha sorte.
E
o que descobri, uma vez incorporado aquela cidade sem nome foi que o padrão de
desordem anárquica de sua muralha se replicava por cada ínfimo canto de sua
fortaleza, inclusive (o que não tardei em descobrir) em seu interior.
Era
“maior por dentro”, certamente. O que de fato não era tão improvável assim, uma
vez que eu não me encontrasse em estado de espirito apropriado para ter
claridade e dimensão de tudo o que via, mas tivesse o discernimento necessário
para reconhecer a falha humana de meus atos, sem um mínimo de rancor ou mágoa.
Eu
estava enganado, não só quanto as dimensões, temo, mas quanto à esperança de
solidão. Tardei mais do que o necessário em finalmente ver alguém, mas pude
sentir sua companhia um tanto antes, quando, por um momento de rara lucides,
sobressaiu-se em uma vasta área do pátio de paralelepípedo um banco de praça
(mais uma vez destoante do padrão, como tudo aliás), que muito me lembrava os
bancos das praças da minha cidade de infância, onde decidi parar e repousar
minha longa jornada.
Então,
com o coração e a consciência brevemente relaxados, foi que pude realmente
ouvir o inconfundível ruído de pessoas sendo pessoas a diversos pontos da minha
localização, me dando a certeza de que eu não estava, definitivamente, só.
Passos
ao oeste, gritos ao sul, uma diversidade sonora a noroeste... e um leve frio na
espinha, de primeiro dia de aula, a inquietar-me a vida.
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