09 - Aquiescendo
A verdade é que, mesmo que meus olhos tivessem, pela convivência, se acostumado à inexistente luz do buraco aonde eu me encontrava, ainda me faltava no céu um cruzeiro do sul para ter como guia em minha nova jornada — que desprovida desse pequeno detalhe, nada mais era do que um cansativo perambular, um consciente vagar, sem o menor objetivo, por uma terra devastada e infértil.
Não creio que andasse em círculos. À princípio talvez, como em qualquer outra situação em que uma pessoa se vê enfrentando algo novo. Mas, após ter conseguido fixar mentalmente o entorno a minha volta — uma vez que visivelmente era quase impossível, devido a densa penumbra e escuridão — fui avançando gradualmente ao ponto em que julguei — por cálculo aproximado — ser o meu leste. Onde em outro momento julguei ter visto nascer a luz de um novo dia.
As vozes que me chamaram outrora, encontravam-se mudas. Silenciosamente escondidas na vastidão de minha cegueira. O som das folhas secas por onde eu passava me trazia uma sensação outonal. As árvores igualmente ressecadas, as quais esbarrei uma que outra vez no caminho, contrastavam imensamente com as que eu recordava ter visto antes da queda, e, mais uma vez, me vi agarrado a comparações entre elas, e o quanto as de minhas recordações era infinitamente melhores.
O clima também era extremamente danoso, húmido, elevando exponencialmente o frio de maneira a ele encontrar em meus ossos o lar ideal.
“Pelo menos alguém chegou a algum lugar!”, penso, amargurado. É difícil não perceber que meu caminho, embora esperançoso por uma nova colina que me fizesse regressar ao estágio inicial, na verdade convertia-se em um lento declive, em que, quanto mais caminhava, mais ia descendo.
Vagava como alma penada que finalmente havia me tornado, foi a conclusão a que cheguei. Esse pensamento me perturbou tanto, que minha própria consciência se “apagou” no tormento, deixando o que quer que havia restado, perambulando sem capitão, sem rota, sem rumo, perdido no espaço-tempo indefinidamente.
Exatamente assim, como relato aqui, foi que cheguei, por acaso, coeincidência e instinto, ao lugar mais inusitado a que podia ter chegado por aquelas bandas.
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