05 - Um Animal Ferido



Na verdade, creio que o leão estivera ali o tempo todo, e só ao levantar-me, precatei-me de sua existência. A primeira visão que tive foi a de um animal, forte robusto, mas parcialmente rasgado, mastigado, marcado por feridas graves em diversas partes de seu próprio corpo. O que me levou a constatação errônea de que o animal em questão estivera em uma briga recente (talvez até mesmo com o leopardo que me derrubara abismo abaixo). Digo errônea, porque quase nada demorei a perceber que o próprio leão, sedento de raiva e fome, era quem estava mutilando e comendo-se a si mesmo de forma irracional e insaciável.

Sentiu meu cheiro tão logo me levantei (graças a Deus não antes que eu pudesse me defender). Menos do que isso necessitou para arremeter com força em minha direção. 

Nem é preciso dizer que o perigo da situação competia por igual à que eu me encontrava a pouco. 

Tratei de correr o mais rápido que as pernas permitiam rumando desesperadamente na direção do chalé. Mas a raiva, a fome, e a forma irracional que seu aspecto carnicento sugeria era perturbadora demais para um velho sexagenário manter suas faculdades mentais sóbrias, sem ser engolido pelo nervosismo, deixando-se mais uma vez, cair vale abaixo, em um nível ainda mais profundo.

Aparentemente não tão profundo: o rugido enlouquecido da besta vinha gutural, soando e ressonando em ecos atrás da presa que havia escapado. Um som triste, tormentoso e estritamente familiar, do qual eu não podia me esconder. Interminável, violento em sua totalidade. 


Ficou rugindo por épocas, como animal ferido que era.

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