13 - O Contador de Histórias
Não me reconheceu. Fiquei um longo período sentando cerca a ele, observando-o apenas, enquanto bebia e ria e contava as mesmas piadas sem graça que sempre contara desde que me conheço por gente.
Sua juventude me confundia, me incomodava. A ponto de eu não estar tão certo de que tudo o que me sucedia atualmente não passasse de um sonho de extremo mal gosto.
Segui observando-o. Tentando entendê-lo quiçá. Analisando como se portava, e como eu poderia racionalizar com ele. Tinha medo, um pequeno receio na verdade, de que laços de família nada significassem depois de tanto tempo.
Contava agora uma história estranha, e havia juntado uma certa aglomeração ao redor de si para ouvi-la. Era o conto de um idiota, dizia.
— Estávamos ali, ela e eu, um revolver pra cada, apontando contra o peito do outro. Tínhamos lágrimas nos olhos, e juras de amor nos lábios, e ainda assim estavamos em lados opostos. E decidimos dar um fim naquilo, então eu, com a mão trêmula tentei puxar o gatilho, mas nem toda a força do mundo era capaz de me obrigar a tal gesto. Então eu disse: “pode puxar o gatilho, meu bem. Eu não confio em mim pra fazer isso...” E esperei que ela tivesse piedade, ou coisa do gênero.
Alguém perguntou:
— O que aconteceu?
Ele saboreou por um momento a ansiedade de sua pequena plateia.
Enfim disse:
— Então, sem desviar o olhar, sem mesmo piscar nem pensar muito, ela puxou o gatilho.
E dizendo isso desatou a rir, estridentemente.
— Aquela desgraçada...
Chamavam-no de O Contador de Histórias, ou simplesmente o contador. O motivo de sua popularidade era meio óbvio, uma vez que se dispunha a estar volta e meia com uma crônica na ponta da língua, todas em primeira pessoa, como se de fato houvesse vivido tudo aquilo.
Em dado momento depois de inúmeras rodadas, percebeu-me em um canto.
— Alguém traga uma bebida para o novato, e mande ele parar de me encarar, pois já está me dando nos nervos...
Novato?
A observação intrigou-me pela exatidão. Então pus-me a reflexionar sobre como ele poderia ter tido tal certeza, e a resposta apareceu-me quase que ao momento.
— Está chamando-me de novato por eu ser velho?
A pergunta o surpreendeu. Creio que até já tinha em mente o discurso com a explicação, mas minha pergunta o desarmou e o desconcertou visivelmente.
— Eu te conheço, velho?
Pensei um pouco.
— Conhecer é uma variável interessante — eu disse, pegando a cerveja que me era oferecida — atrelada à convivência. A idade me trouxe manias que eu não tinha, então creio que a resposta seja: não, você não me conhece, mas conheceu outras versões de mim...
Ele sorriu.
— Ótimo, um velho chato era tudo que eu precisava.
Bebi um gole de cerveja. Até então não havia percebido quanta sede tinha. Muita de fato, precisaria de bem mais que um copo para aplaca-la. E foi basicamente o que aconteceu. Em velocidade impar também.
— Calma, velho, assim você vai acabar com o estoque!
Eu era o centro de sua atenção, agora.
— A quanto tempo está caminhando?
Perguntou.
— Tempo? O tempo não existe! — respondi rude.
Ele riu.
— É um velho realmente inteligente então! Aparentemente é!
Não lhe fiz muito caso.
— É um sonho estranho... Um pesadelo, mais tardar... Não existe tempo nessa... Dimensão...
Ele considerou um pouco, como se soubesse de algo embaraçoso demais pra me contar.
— Na verdade, velho... Você está... Sinto muito ser eu a te dizer isso... — Tinha todo o tato do mundo, escolhendo as palavras para dizer. — Você morreu!
Sua juventude me confundia, me incomodava. A ponto de eu não estar tão certo de que tudo o que me sucedia atualmente não passasse de um sonho de extremo mal gosto.
Segui observando-o. Tentando entendê-lo quiçá. Analisando como se portava, e como eu poderia racionalizar com ele. Tinha medo, um pequeno receio na verdade, de que laços de família nada significassem depois de tanto tempo.
Contava agora uma história estranha, e havia juntado uma certa aglomeração ao redor de si para ouvi-la. Era o conto de um idiota, dizia.
— Estávamos ali, ela e eu, um revolver pra cada, apontando contra o peito do outro. Tínhamos lágrimas nos olhos, e juras de amor nos lábios, e ainda assim estavamos em lados opostos. E decidimos dar um fim naquilo, então eu, com a mão trêmula tentei puxar o gatilho, mas nem toda a força do mundo era capaz de me obrigar a tal gesto. Então eu disse: “pode puxar o gatilho, meu bem. Eu não confio em mim pra fazer isso...” E esperei que ela tivesse piedade, ou coisa do gênero.
Alguém perguntou:
— O que aconteceu?
Ele saboreou por um momento a ansiedade de sua pequena plateia.
Enfim disse:
— Então, sem desviar o olhar, sem mesmo piscar nem pensar muito, ela puxou o gatilho.
E dizendo isso desatou a rir, estridentemente.
— Aquela desgraçada...
Chamavam-no de O Contador de Histórias, ou simplesmente o contador. O motivo de sua popularidade era meio óbvio, uma vez que se dispunha a estar volta e meia com uma crônica na ponta da língua, todas em primeira pessoa, como se de fato houvesse vivido tudo aquilo.
Em dado momento depois de inúmeras rodadas, percebeu-me em um canto.
— Alguém traga uma bebida para o novato, e mande ele parar de me encarar, pois já está me dando nos nervos...
Novato?
A observação intrigou-me pela exatidão. Então pus-me a reflexionar sobre como ele poderia ter tido tal certeza, e a resposta apareceu-me quase que ao momento.
— Está chamando-me de novato por eu ser velho?
A pergunta o surpreendeu. Creio que até já tinha em mente o discurso com a explicação, mas minha pergunta o desarmou e o desconcertou visivelmente.
— Eu te conheço, velho?
Pensei um pouco.
— Conhecer é uma variável interessante — eu disse, pegando a cerveja que me era oferecida — atrelada à convivência. A idade me trouxe manias que eu não tinha, então creio que a resposta seja: não, você não me conhece, mas conheceu outras versões de mim...
Ele sorriu.
— Ótimo, um velho chato era tudo que eu precisava.
Bebi um gole de cerveja. Até então não havia percebido quanta sede tinha. Muita de fato, precisaria de bem mais que um copo para aplaca-la. E foi basicamente o que aconteceu. Em velocidade impar também.
— Calma, velho, assim você vai acabar com o estoque!
Eu era o centro de sua atenção, agora.
— A quanto tempo está caminhando?
Perguntou.
— Tempo? O tempo não existe! — respondi rude.
Ele riu.
— É um velho realmente inteligente então! Aparentemente é!
Não lhe fiz muito caso.
— É um sonho estranho... Um pesadelo, mais tardar... Não existe tempo nessa... Dimensão...
Ele considerou um pouco, como se soubesse de algo embaraçoso demais pra me contar.
— Na verdade, velho... Você está... Sinto muito ser eu a te dizer isso... — Tinha todo o tato do mundo, escolhendo as palavras para dizer. — Você morreu!
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