01 - O Tempo...
Eis que, eu, Rafael Miguelez, no auge dos meus sessenta e poucos anos, me vi caminhando em uma rua parcamente iluminada, deserta, sob uma chuva fina, porém constante, e o frio de um inverno bem rigoroso, a pesar meu animo.
Embora sentisse que fazia o caminho regresso, (sentimento esse que me enchia a alma) fui assaltado de certa inquietação ao perceber que tanto a chuva, quanto o tempo de caminhada, ou o próprio frio cortante, ocuparam-me, em exagero, horas nos passos de um velho. Sentia também deixar para trás a recente tristeza lógica de meus entes mais queridos, e a profunda mágoa que vêm à constatação disso me atrasou um pouco mais (um dia, um mês, ou um ano talvez).
A própria percepção do tempo — não pelo meu estado debilitado de velhice, suponho — era algo peculiar ou inexistente: a noite, avassaladora, nunca chegava a ser dia. A estrada de asfalto irregular, permeada de poças d’água (frutos de uma péssima administração), por onde nenhum carro jamais voltara a passar, não mostrava indícios de ter algum fim. Os prédios a minha volta, ora de ordem residencial, ora puramente industriais, reforçavam a ideia labiríntica de que eu andava em círculos em uma cidade perdida, distante do mundo.
Ainda assim persisti. Pois o sentimento de volta a casa me invadia e me guiava adiante, por mais que a paisagem a minha volta seguisse imutável.
Seria tolice insistir em afirmações sobre quanto tempo segui assim, uma vez que (insisto nesse ponto) de forma alguma eu pudesse medi-lo, senti-lo, precatar-me de sua existência, mas que não se pense que o ato de caminhar pelo infinito, indefinidamente, me trazia fatiga física afora os incômodos já mencionados, como a mágoa, o frio incessante e a chuva que me molhava até os ossos, e, é claro, um forte e reprimido sentimento de saudade, acrescido de boa dose de solidão.
Então, antes de a irritação ter o mesmo peso das roupas molhadas que eu vestia, ou o mesmo tom de indulgencia que o frio à minha volta proporcionava, a perseverança de meu caminhar finalmente chegou a uma curva distinta, onde a paisagem mudava drasticamente, e o asfalto dava espaço a uma estrada lamacenta de chão batido. Mais adiante, a chuva ia cedendo passo a um clima ainda úmido, não obstante mais agradável. O céu nublado se abrira de todo, e eu passava, com meu olhar penoso e geriátrico, a observar tímidas estrelas que se firmavam num toldo azul escuro, multi-tom.
Cheguei a um cruzamento por onde passava uma via férrea de um trem de carga muito antigo, e avistei a certa direção, após ter caminhado quase o dobro do que já havia caminhado até aqui, os primeiros raios de luz, do que sugeria ser o raiar de um novo dia.
A simples esperança dessa visão quitou de cima de mim uma década de desgosto.
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