04 - Trevas...
Ergui-me, finalmente, estabelecido do susto e do torpor da queda. Coração batendo como um látego em costa de inocente. Instintivamente, me acerco a zona menos sombria da encosta por onde caí.
Ao meu redor uma névoa escura tomava forma. Inspirava-me o real pavor que acomete aquele que percebe-se em grande perigo. Meus mais nefastos temores criavam fantasmas naquela dimensão cega. Persuadiam-me a um esforço hercúleo e uma decisão importante.
Assim, pus-me a forcejar aqueles ossos doidos. A subir por onde perigosamente havia caído, uma vez que não podia simplesmente ficar ali ouvindo as palavras que os fantasmas sussurravam.
Com um grande esforço, vou escalando o caminho íngreme. Definitivamente, nenhuma dor, nenhuma escoriação, nenhuma aparente luxação muscular ou mesmo vontade falida, tinha importância frente ao medo que experimentei lá embaixo.
Ao sentir as mãos no chão verde outra vez, tendo a percepção de que o calor aumentava admiravelmente (advento do sol que quase nascera por completo), uma sensação de alívio percorreu meu corpo fraquejado, quebrado. Sensação essa que firmou-se na constatação de que meu algoz, o leopardo, havia enfim cumprido seu misterioso propósito e partido.
Deixei-me, por isso, demorar, deitado sob o sol. Lagarteando, recobrando (pelo menos em parte) as forças.
Quem me dera esse momento durasse mais do que uma simples eternidade.
Quem me dera que, ao levantar-me, precipitadamente confiante de meu triunfo, nenhum outro felino saísse abruptamente do bosque em minha direção.
Quem dera…
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