03 - O Leopardo
Apressei o passo, cheio de temor e ansiedade em direção ao chalé que se situava muito mais distante do que eu havia imaginado à primeira vista.
Para que o leitor compreenda melhor o que passou a seguir, primeiro é necessário que entenda que, à parte do caminho plano e da grama verde que se seguia entre mim e meu objetivo, havia de um lado uma carregada selva, que antes ladeava o lago, mas que agora se adensava de forma profusa à paisagem. Já do outro lado, podia-se ver, pelo pouco que o nascer do sol iluminava, um imenso vale, e uma desmesurada parcela de escuridão palpável em seu interior.
Eis que quando estava prestes a alcançar meu objetivo, sai do meio da selva um leopardo pálido, com ares de insegurança, porém ágil e vigoroso. Pôs-se em meu caminho no mesmo instante, bloqueando minha passagem.
Contudo, não me atacou.
Pude perceber que possuía certa inteligência. Um senso de direção e um faro aguçado. Em momento algum chegou a me dar medo de todo, tampouco me deixei levar pela impressão de que era realmente manso. Sua presença ali, resultou para mim em um quebra-cabeças inteligível. Cada vez que eu tentava ultrapassá-lo, sua agilidade dava conta de tontear-me. Colocou-se em meu caminho estrategicamente de forma a não me dar alternativa de retorno, ao mesmo tempo em que ia me empurrando, vagarosamente, em direção ao vale. Em diversas ocasiões me sobreveio a nitidez de sua inexperiência. Várias chances tive de lograr vitória sobre ele, não fosse o peso do cansaço, da idade que me vinha encima, ou a falta daquela juventude arrogante que ele gritava aos quatro ventos.
Tanto e tão longe foi nossa luta, que de pouco em pouco meu fracasso foi ficando evidente, à medida em que era empurrado impiedosamente para longe daquilo que eu mais almejava, até que me vi caindo ladeira abaixo nas trevas que o vale escondia.
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